05/09/2017

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Gilnei Lima



Crônica da semana "A Represa", interpretada pela jornalista Tâmara Figueiredo no programa A Voz do Povo, de sábado 02/09/17.

A represa era gigantesca. Havia quem dissesse que era inesgotável. Sua extraordinária parede de terra muito bem compactada criou um formidável lago. Tinha tanta água que seria possível abastecer um país de dimensão continental. O lago, por sua vez, guardava tanta riqueza que era possível alimentar com seus frutos uma nação inteira.


Sua grandiosidade era tamanha, que sua barragem - a tal parede de terra muito bem compactada - possuía grandes comportas, onde estavam instaladas turbinas, e assim, a represa era a maior usina do planeta, o que despertava muita cobiça. Porém, o que mais interessava a alguns homens oportunistas, era a boa terra compactada que formava a parede da represa.

Assim, como ninguém prestava atenção à terra, os homens oportunistas começaram a retirar uma pá de cada vez. Afinal, cada pá daquela terra valia um milhão.

Desse modo, de pá em pá, uma de cada vez; um milhão por vez, a terra estava sendo retirada, sem que ninguém percebesse. Uma pá, um milhão.

E como era fácil levar uma pá de terra. Ninguém percebia, e valia um milhão cada. Foi aí que os homens oportunistas passaram a utilizar enxadas para remover a terra, e agora já usavam um carrinho de mão. Tudo em nome da produtividade. Afinal, a terra era "afrouxada" com a enxada; isso rendia várias pás de cada vez, toda acomodada no carrinho de mão. Assim, levavam algumas "pás" em cada empreitada, lembrando que cada pá valia um milhão.

Ninguém notava. ninguém percebia. Ah, como era fácil! Tão fácil que passado algum tempo, os homens oportunistas passaram a usar uma pequena escavadeira em um trator. Que maravilha! Dezenas de pás, cada uma valendo um milhão, sendo retiradas mais rapidamente. Bem, mas para onde estava sendo levada esta terra? Ora, bolas! Para construir suas próprias represas. Afinal, ninguém estava olhando, aliás, ninguém sequer percebia.

Para acelerar o trabalho, os homens oportunistas resolveram usar retro-escavadeiras, muito mais rápidas e eficientes, aumentando assim a retirada da boa terra compactada, que formava a parede que continha o lago em represa, que tinha tanta riqueza que poderia alimentar infinitamente uma nação inteira. Além disso, a represa tinha comportas e turbinas que geravam energia.

Provavelmente os homens oportunistas quisessem ter em suas próprias represas, usinas e sua própria nação. Por isso desviavam tanta terra, pá por pá, cada uma valendo um milhão.

O que ninguém percebia, nem esperavam os homens oportunistas, é que um certo dia, a extraordinária parede de terra muito bem compactada que formou o formidável lago, ficou tão frágil que não suportava mais conter tanta água em represa. Aquela água tão rica que poderia alimentar uma nação. Então a parede começou a ceder, e rachaduras começaram a se formar, não demorando para que aquela extraordinária parede de terra muito bem compactada desmoronasse, causando uma catastrófica inundação, levando por diante tudo o que havia pelo caminho. A energia parou de ser gerada, e a riqueza do lago, que poderia alimentar infinitamente uma nação inteira, acabou.

Instalou-se miséria, fome e muito ódio nas pessoas que nada percebiam e nada viam, enquanto os homens oportunistas levavam uma pá de terra de cada vez, cada uma valendo um milhão.

A terra, que vale um milhão cada pá, serviu como moedas de prata para que os homens oportunistas tivessem um séquito de defensores. Gente que também é oportunista e roubará toda a boa terra ao redor de seus pés. Por essa simples razão, a nação não tem mais um lago repleto de riqueza, capaz de alimentar um país de dimensão continental, pois enquanto ninguém percebia, homens oportunistas roubavam, com pás, sua vida e seus sonhos de prosperidade.

Mantenha-se vigilante, pois eles ainda têm suas pás e suas retro-escavadeiras, esperando você reconstruir uma nova represa.

Veja mais: Crônica semana a represa